EM ALGUM LUGAR POR AÍ...
O
mundo sempre para diante da bela história do Homem de Nazaré. Há séculos, a
Igreja, após um longo caminho de penitência e reflexão (Quaresma), chega a tão
esperada Semana Santa. Ao contrário do que muitos pensam, este Caminho não deve
ser marcado pela tristeza ou lágrimas superficiais, ou gestos de caridade
visando apenas garantir vagas no céu, mas, deve ser feito em profunda oração,
buscando estreitar ainda mais nossos laços de Amor e Amizade com Jesus e, por
consequência, nascerão daí os gestos quaresmais que devemos fazer sempre. Sim,
devemos chorar nossos pecados com “pesar e com temor”! No entanto, isso deve
ser feito no Caminho Espiritual que Jesus fez. Ressalte-se que Jesus não o fez
por ter pecados, mas, para mostrar-nos por qual via nos é mais fácil tocar o
coração de Deus.
O
Evangelho de Marcos 14, 32-42, relata para nós uma breve e angustiada caminhada
feita por Jesus em companhia dos Apóstolos. Com todos Ele segue para rezar ao
Pai. Marcos destaca a angústia de morte que envolvia Jesus. Já no jardim, Jesus
convida Pedro, Tiago e João para estar com ele em oração e vigília. É
interessante destacar que os convidados para rezar com Jesus são os mesmo que o
viram Transfigurados (Mc 9, 2-8), ou seja, quem contempla a glória, agora
contempla a dor. E o evangelista dá mais uma ênfase dizendo que os convidados a
rezar, dormem. Deixam Jesus em sua tristeza abandonado e esquecido. Parecem ter
esquecido de tudo que viveram com Jesus. Até mesmo, Pedro que alguns versículos
acima promete segui-Lo até na morte, dorme e esquece a dor de seu amigo, de
quem receberia a missão de conduzir a Igreja. E a tristeza de Jesus aumenta ao
perceber que tão logo tudo o que ele fez e ensinou será esquecido pelos homens.
Os homens, mesmo diante da Graça e da Verdade de Deus, ainda cochilam e ignoram
tão grande prova de Amor. “Vigiem e rezem, para não cair em tentação! Porque o
espírito está pronto para resistir, mas a carne é fraca” (Mc 14, 38).
O
tempo quaresmal nos lembra que nossos pecados devem morrer constantemente.
Todos os dias temos que renunciar; todos os dias temos que renovar nosso estar
com Deus; todos os dias precisamos voltar... Não se trata de um processo de
fazer repetições, mas de confirmar o nosso SIM incessantemente. Não que Deus tenha
duas palavras e, sim, porque nós falhamos mesmo quando tomamos a decisão mais
certa de nossa vida.
Os
acontecimentos da Semana Santa nos pedem mais que participação, comoção e
agitação, exige encarnação, apropriação e configuração pois, de agora em diante,
devemos “fazer tudo que Ele nos disser” (Jo 2, 5) e até mais que isso, se nos
permitir nossa fé. Isso é ser cristão. Ser como Jesus é. Fazer o que Ele nos
ensinou em cada instante de nossa existência.
Por
fim, saibamos que nosso Caminho não termina com a morte de Jesus. A morte de
Jesus deve se configurar com a morte dos nossos pecados. Ao morrer Ele nos
liberta para sempre. Mas, não nos obriga a aceitar sua libertação. Ainda somos
nós que escolhemos entre o pecado e a Graça, embora tenhamos sido criados para
o Bem e a morte de Jesus confirme que somos filhos da Luz. Nunca deixemos de
nos indagar como faz o salmista: “Que é o homem Senhor para vós? Por que dele
cuidais tanto assim?” (Sl 8, 4-5).
A
morte é a passagem para a vida. Por isso, não podemos caminhar com Jesus até o
jardim apenas. Precisamos ir adiante. Precisamos lavar os pés do outro, descer
do nosso egoísmo, do orgulho, da autossuficiência. Precisamos morrer com Ele e
sentir o quanto nossos pecados crucifica-nos e aos outros. Precisamos descer a
frieza do sepulcro, do esquecimento, ao silêncio profundo do interior de nossos
corações, que neste dia, devem ser os jardim e sepulcro de Jesus. E assim
quando Ele se levantar, levantaremos com Ele. No nosso coração será acesa a
Chama Eterna que nada poderá apagar. E então o mundo conhecerá “a razão de
nossa fé” (1 Pd 3, 15). O Caminho de Jesus deve ser o nosso caminho. Só um
Homem pode dar ao homem o sentido de sua existência. Jesus é o Homem do Pai.
Foi
num jardim que começou a história da humanidade. Foi num jardim que o homem se
perdeu. No jardim começou sua dor... Contudo, da desgraça do jardim brotou a
Árvore da Vida. Foi da angustiada oração de Jesus do jardim que a vontade do
Pai se fez pelo Filho, no Espírito. Foi no Jardim que Jesus e o Pai se
encontraram e nos deu para sempre a salvação. Da dor do jardim nasceu a alegria
de sermos chamados Filhos de Deus.
Que
sejamos conduzidos pelo Espírito nesta estrada longa e sofrida, por meio da
qual, e tão somente dela, encontraremos a Verdadeira razão de Crer e Existir.
Que não nos falte a incessante intercessão da Virgem Santa e de São José, seu
Esposo. Que ressuscitemos com Jesus! Fraternalmente, pela união que nos provém
de Cristo,
Natael Costa Santos, Seminarista da Diocese de Amargosa.
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