"Nada na minha cabeça fazia sentido, nenhum texto
era compreensível. Os pensamentos não fechavam e uma pressão
insuportável dava a nítida sensação de que o peito ia explodir”. Foi
assim que Ricardo Boechat, apresentador da Band, definiu o surto
depressivo agudo que o afastou do trabalho nas últimas duas semanas.
Boechat, que falou publicamente sobre o problema na manhã desta
quinta-feira (27), não está sozinho. Segundo dados do IBGE, cerca de 11
milhões de pessoas sofrem com a doença no Brasil. No mundo, conforme
dados da OMS (Organização Mundial da Saúde), são 350 milhões de afetados
pelo mal, que deve se tornar o mais comum entre a população do planeta
até 2030. O psiquiatra Fernando Fernandes, do programa de transtornos
afetivos da USP (Universidade de São Paulo), explicou que a depressão é
um quadro muito complexo, que afeta diversos órgãos e sistemas do corpo,
além de ser incapacitante.. “Está muito longe de ser só uma doença dos
sentimentos, da mente, ou mesmo cérebro”, explica o especialista. Mas
como detectar a doença e diferenciá-la de uma tristeza? Segundo
Fernandes, na tristeza normal o paciente mantém a sua funcionalidade, já
que ela sempre tem uma motivação definida e vai diminuindo ao longo do
tempo. Na depressão, a tristeza não tem uma razão definida e é
desproporcional, nem diminui quando seu motivo é solucionado. Além
disso, o sentimento é percebido pelo paciente de uma maneira diversa. “O
que define a depressão não são os sintomas afetivos”, pontua o
psiquiatra. “Haverá também sintomas cognitivos: dificuldade de
concentração, fragilidade na memória recente e diminuição na velocidade
do pensamento, com o fluxo da ideias prejudicado”, enumera o médico, ao
explicar que a pessoa para a ter uma visão acinzentada e pessimista da
vida. Gatilho genético não tem ativador específico: Segundo o
especialista, o desenvolvimento da doença é favorecido por uma
fragilidade genética e episódios estressantes podem servir como gatilho
para que a pessoas seja afetada. Apesar disso, alguns pacientes são
atingidos pela depressão sem que vivam nenhum quadro que precipite o
aparecimento do mal. “Hábitos de vida saudáveis podem ajudar a prevenir
episódios depressivos ou alterações patológicas do humor? Claro que
podem, mas não existem alterações específicas”, diz Fernandes. As
recomendações para evitar o aparecimento de problemas são para não
abusar do álcool ou usar outras drogas, respeitar o ciclo sono-vigília e
reservar espaço nas atividades para descanso e lazer. “São orientações
gerais de qualidade de vida. Não existem orientações específicas para
depressão”, explica o psiquiatra. “Eu costumo dizer assim: depressão é
uma doença médica. Muitas recomendações de vida saudável que valem, por
exemplo, para doenças cardiovasculares, vão valer também para a
depressão.”
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