Segundo ele, a população não perdoaria se a unidade não acontecesse.
Em tom crítico à atual gestão, o democrata destaca como prioridade de
seu programa a reorganização das finanças estaduais e a implantação de
medidas para o desenvolvimento econômico. Segundo ele, o estado perdeu
posições significativas e aumentou os números da violência. Sem temer
comparativos, o democrata diz que sua “preocupação é olhar o futuro”.
Tribuna da Bahia - Houve uma resistência muito grande para o senhor
assumir a candidatura. Com esse processo superado, como o senhor avalia
esse início de pré-campanha para as eleições estaduais?
Paulo Souto - O processo de definição da chapa, aparentemente, demorou
mais do que esperávamos. Mas, o resultado disso foi positivo porque
durante 40 dias, na Bahia, só se falava na formulação da chapa da
oposição. Como o resultado foi positivo, no sentido de que o objetivo
principal foi alcançado, isso acabou nos beneficiando. Foi a unidade dos
partidos todos representados. Essa era a lição que a população nos dava
e nós conseguimos cumprir. Era evidente que ela queria que nós
fizéssemos a união. Nós não seriamos perdoados se isso deixasse de
acontecer. Como aconteceu e teve final feliz, o que poderia prejudicar,
beneficiou.
Tribuna - O temor de algumas pessoas era que duas candidaturas da
oposição fragilizassem a competição para a ala oposicionista. Como
analisou essa manifestação?
Souto - Duas candidaturas ou o fato de, de alguma forma, as forças que
são as mais representativas da oposição aqui na Bahia não irem unidas
iria dificultar o processo. Não estamos falando apenas das questões
municipais, estamos falando também daquelas pessoas ansiosas para ver
uma chapa competitiva para vencer as eleições e mudar os destinos da
Bahia. Elas esperavam que isso acontecesse e aconteceu.
Tribuna - O que convenceu o senhor a aceitar esse desafio?
Souto - O fato de eu ter sido governador duas vezes, eu tinha que
deixar, em um primeiro momento, possibilidades abertas para que
aflorassem outras aspirações. Se não, até esse final não teria
acontecido. Se eu tivesse dito que o candidato seria eu e ponto final,
teria dificultado muito essa composição que houve. Meu primeiro
sentimento foi deixar as candidaturas aflorarem. A partir daí começou um
processo de discussão. No momento em que eu senti que era possível ir,
houve em torno do meu nome uma tendência muito favorável, em termos de
opinião pública, revelada pelas pesquisas. Então, eu coloquei claramente
a possibilidade da minha candidatura e se processaram esses
entendimentos que foram demorados, tensos, mas foram, sobretudo,
democráticos. Ninguém bateu na mesa e disse como seria, ninguém exigiu,
ninguém impôs e nós sentimos que a união era exatamente o que uma parte
ponderável da população da Bahia queria.
Tribuna - Como o senhor viu a indicação de Joaci Góes para vice na chapa?
Souto - Muito bem, por dois motivos: primeiro porque o PSDB, que é um
partido forte, está representado e segundo porque é um nome conhecido,
que já militou na política, hoje dedicado a estudar temas nacionais e
baianos, de modo que enriquece muito a formulação da chapa.
Tribuna- O senhor acredita que o que levou Geddel a recuar foi esse
argumento de que a unidade da oposição seria o mais importante nesse
momento?
Souto - Eu não diria que foi um recuo. Claro que ele tinha toda a
legitimidade para ter essa aspiração, mas o sentimento que sobrepujou
tudo isso foi a necessidade que estivéssemos reunidos. Nós estávamos no
mesmo projeto. Somos oposição ao governo do estado e queremos um momento
novo para a Bahia, portanto valia a pena qualquer tipo de sacrifício de
qualquer um de nós para que isso acontecesse.
Tribuna - Quais serão as principais estratégias de campanha que o senhor pretende colocar em prática imediatamente?
Souto - O que eu estou enfatizando em um primeiro momento é que é
preciso reorganizar a situação financeira do estado. Sem isso, muito do
que se falar não vai passar credibilidade para a opinião pública. O
estado está atrasando sistematicamente prestadores de serviços,
fornecedores, empresas terceirizadas. Há uma situação de atraso crônico
no estado, que já está há três anos expondo em seus demonstrativos
financeiros uma situação absolutamente inusitada, que é um déficit de R$
2,5 bilhões de recursos próprios. Ou seja, está gastando a mais de
recursos próprios dois bilhões e meio do que arrecada e está cobrindo
isso com recursos vinculados. Deve estar sendo um desespero para
resolver isso no último ano. Daí, essa desastrada operação de
antecipação de royalties que o governo está propondo. Essa é a primeira
coisa. Um reequilíbrio financeiro do estado para que a Bahia volte a
ocupar uma posição de respeitabilidade. Outra coisa é sobre as
manifestações do ano passado, que mostraram claramente a insatisfação da
população com relação aos serviços públicos essenciais. Coisas que a
população precisa todo dia e toda hora. E o que ela precisa todo dia e
toda hora? Bom serviço de assistência de saúde, sistema de segurança
pública mais eficiente, sistema educacional que atenda as necessidades
dos jovens, a mobilidade que também é importante. O ponto principal que
eu acho e estou falando agora, antes de interagir, antes de ouvir, é uma
melhoria na qualidade dos serviços públicos essenciais à população.
Tribuna - O senhor acredita que o principal pilar do programa de governo
da oposição vai ser a reestruturação do serviço público, a prestação do
serviço público na Bahia?
Souto - Isso. A começar pela reorganização da condição
econômico-financeira do estado. Isso como pressuposto fundamental para
que a gente possa efetivamente dar excelência ao serviço público que a
população demanda. Isso é essencial, é função do estado que nós temos
que cumprir. Esse é um pilar, e o outro é o desenvolvimento econômico
que a Bahia não aproveitou a fase em que o Brasil mais cresceu. Nós
perdemos posição do PIB. As pessoas estão esquecidas disso, a Bahia
passou da sexta posição, que sustentamos por tanto tempo e até nos
aproximamos da quinta, para a oitava posição. Isso é irrespondível. Vai
melhorar em 2013, vai melhorar em 2014? Não sei. O que eu sei é que
aconteceu isso, que é gravíssimo. Isso revela, apesar de todos os
números que o governo apresenta, que a Bahia perdeu importância sob o
ponto de vista de atrair e, sobretudo, de concretizar investimentos
importantes para o estado.
Tribuna - O senhor falou em números. O atual governo destaca um
comparativo entre os oito anos de sua gestão com os oito que vão ser
completados pelo governador Jaques Wagner, colocando como bastante
favoráveis para o modelo que aí está.
Souto - A minha preocupação não é essa. A minha preocupação é olhar o
futuro, ver o que a população deseja e trabalhar pelo futuro. Depois é
absolutamente normal que, em alguns setores, os governos que se sucedam
possam, eventualmente, apresentar alguns números que sejam mais
relevantes. Mas, eu não tenho nenhum problema com essa comparação. É
preciso notar duas coisas: primeiro que ninguém teve a oportunidade que o
atual governo teve de governar por oito anos seguidos. Na história
política recente da Bahia, não existe isso, ninguém conseguiu isso. Ele
teve uma oportunidade excepcional. Teve o governo federal favorável o
tempo todo, teve uma fase de crescimento que esses recursos vieram para a
Bahia. Eu, por exemplo, vejo com extrema desconfiança a maioria dos
números que o governo apresenta. Eu costumo dizer que precisam ser
auditados antes de serem discutidos. Mas, não há nada demais que em um
programa ou outro onde houve, eventualmente, maior disponibilidade de
recursos isso possa ser apresentado. Existem alguns números que,
felizmente, os nossos são menores. Eu agradeço muito que eles sejam
menores, como, por exemplo, o número de homicídios, o número de roubos e
furtos a veículos, o número de assaltos a bancos. Já outros números
nossos são maiores como a participação no PIB e assim por diante. Então
não me parece que esse seja o enfoque que a população deseja. Mas, não
podemos aceitar números que são absolutamente irreais, que confrontam
com dados oficiais que são apresentados pelos órgãos de estatística
nacionais.
Tribuna – Quais números?
Souto - Eu não vou antecipar agora, mas são diversos números referentes a
muitas coisas que os números do governo não batem com os que são
apresentados pelos órgãos nacionais.
Tribuna - Como o senhor vê a chapa PT? Há algum tipo de temor em relação à campanha, devido à força da máquina do estado?
Souto - Primeiro que eu não gosto de falar sobre os adversários. A única
coisa que eu sei sobre a chapa é que ela foi, em um governo que se diz
republicano e democrático, imposta. O problema da qualidade da chapa não
me cabe discutir. Isso é a população que vai julgar no decorrer da
campanha.
Tribuna - No seu entendimento, há fadiga de material no governo do PT, na Bahia?
Souto - Há uma enorme insatisfação com relação ao PT. Você sente isso
nas conversas com as pessoas e nas pesquisas com relação à avaliação do
governo, à forma como o governo está administrando. Isso se revela, a
cada momento, mais grave, e é isso que está impulsionando para o
sentimento de mudança que a Bahia está vivendo.
Tribuna - A senadora Lídice da Mata passeia na mesma faixa de eleitorado
do PT. O senhor acredita que ela vai dificultar a candidatura do PT e
facilitar para a oposição?
Souto - É inegável que uma parte do eleitorado dela faz parte de uma
base mais ampla que era uma base do governo. A candidatura dela não
desafeta, mas é uma preocupação da outra candidatura governista.
Tribuna - O senhor antecedeu ao governador Jaques Wagner. Diante disso, o
que coloca como o principal erro e principal acerto dos oitos anos
dessa atual gestão?
Souto - Eu não quero particularizar isso. Eu quero falar de forma geral
do governo. Por exemplo, essa primazia absoluta das composições
políticas em detrimento da administração. Isso está prejudicando a
administração. No momento em que há um problema com um partido, cria-se
uma secretaria para satisfazer o partido. Esse tipo de diretriz que o
governo dá dificulta muito a gestão.
Tribuna - O senhor acredita que a administração do prefeito ACM Neto
(DEM) e a forma que ele tem conseguido imprimir à gestão em Salvador
será um trunfo importante na campanha? Vai ser um modelo a ser colocado
para o estado?
Souto - Esse é um dos pontos que eu devia ter focalizado no princípio,
que foi importantíssimo na definição da união das oposições e na forma
como a população nos induziu a isso. O exemplo de Salvador,
principalmente, mas também Feira de Santana, que são as duas maiores
cidades. Essas cidades demonstram que a população, em determinado
momento, independentemente das condições nacionais, optou por soluções
de confiança. Soluções em que acreditava que era capaz de imprimir
orientação nova à administração. Então, sucesso eleitoral e depois, o
que é mais importante, sucesso administrativo de Neto aqui em Salvador e
de José Ronaldo em Feira de Santana. Eu acho que isso é um fator
fortemente indutor a esse sentimento de mudança que está reinando na
Bahia nesse momento. O povo viu que deu certo, que esse grupo encara de
forma diferente, tem capacidade de gestão e deve significar um momento
novo para a Bahia.
Tribuna - O pré-candidato a presidente da República senador Aécio Neves é
um nome pouco conhecido na Bahia. O que tem que ser feito para que ele
tome fôlego e tenha bom desempenho no estado?
Souto - Primeiro essa composição que foi feita é extremamente importante
para ele porque uma parte do PMDB, que no plano federal é um partido
que tem algumas áreas que estão com o governo, está aqui com as
oposições. Então, inicialmente do ponto de vista político, é um ganho
muito importante para ele. Depois, ele próprio nos pronunciamentos
assumiu claramente uma postura de oposição, mostrando à população os
perigos que o país está vivendo mais uma vez no descontrole financeiro e
na certa perda de controle da inflação. Isso tudo vai pesar fortemente a
favor da candidatura dele.
Tribuna - A candidatura de Eduardo Campos também dificulta para o PT, ou seja, para a candidatura da presidente Dilma?
Souto - Sem dúvida nenhuma. São duas forças oposicionistas que estão
cada uma em torno de determinado segmento, mas que ao final têm os
mesmos objetivos com relação às eleições.
Tribuna - O ex-presidente Lula é colocado como carta na manga do PT que
pode ser usada, ainda, nesta eleição, justificando, inclusive, a saúde
da presidente Dilma. O senhor acredita que a entrada de Lula no páreo
dificultaria para as oposições nos estados?
Souto - Eu não vou conversar sobre uma hipótese, principalmente uma hipótese que eu, realmente, não considero.
Tribuna - Onde o senhor vê a oposição mais forte e onde será necessário
fazer um trabalho mais intenso para enfrentar esse modelo que aí está?
Souto - Certamente o desenrolar da campanha vai mostrar isso. Hoje,
pelos instrumentos que nós temos e o que as pesquisas mostram é que há
uma situação de muita irregularidade em todas as regiões do estado. O
que vai acontecer, sem dúvida nenhuma, é a ilusão governista admitir que
mesmo nos pequenos e médios municípios eles vão ter um, dois ou três
grupos. Nós estamos recebendo visitas intensas de grupos locais que,
nitidamente, vão se colocar em posições de confronto, no caso dos
prefeitos governistas. Isso mostra que é ilusão imaginar que vão ter as
famosas bandas ou grupos caminhando todos para um mesmo lado.
Tribuna - Existe algum tipo de temor com relação aos programas
assistencialistas de que eles facilitem o caminho para o PT ou o senhor
acredita que a população já internalizou de tal forma o Bolsa Família, e
que ele não vá pesar na eleição?
Souto - Eu acho que tudo isso já está absolvido e o que existe,
infelizmente, é uma exploração que se repete ano a ano, fantasiosa e
irreal com relação à posição de todo grupo oposicionista sobre esses
programas. Primeiro que esses programas são de natureza federal, segundo
que são inteiramente sustentados por diplomas legais. De modo que toda
preocupação de quem tem consciência é ampliar, aprimorar e, sobretudo,
complementar esses programas.
Tribuna - O que o senhor tem a dizer para a população da Bahia, que vai
voltar a ouvir Paulo Souto a levar promessas e propostas para melhorar a
prestação do serviço público?
Souto - Nesse período, o que me deixou muito à vontade é que tudo que
vejo é um sentimento de confiança em relação a mim. As pessoas confiam,
sabem que eu não vou fazer promessas irrealizáveis, não vou enganar,
sabem que vou dizer a verdade e que eu tenho, graças a Deus, um legado
importante do ponto de vista da ética, da honradez pessoal, da forma
como sempre tratei a administração pública. Isso, nesse momento, eu não
gosto de falar de mim, mas nesse momento em que no Brasil se assiste
tantos problemas nessa área, nesse momento isso é um fator extremamente
importante para quem vai se submeter ao julgamento popular.
Tribuna - Para concluir, com o olhar de quem já foi cronista esportivo, o Brasil ganha a Copa?
Souto - Nós temos que torcer por isso. Felipão é um homem de coragem.
Depois de ganhar a Copa do Mundo ficou um pouco afastado da seleção e
volta a encarar isso. Temos que torcer para que o fantasma de 1950 seja
exorcizado e que o Brasil, animado por um povo que adora futebol,
consiga ganhar a Copa do Mundo. Esse é um ponto. O outro ponto que vai
ser discutido é o problema do que a Copa vai gerar, o que vai deixar
efetivamente de legado e, após o término, o que não funcionou como
deveria ter funcionado. Isso é uma questão que, independente de qualquer
resultado, vai ser discutida antes, durante e depois da Copa.por
Osvaldo Lyra e Paulo Roberto Sampaio. Colaboraram: Fernanda Chagas e
João Arthur Alves. Tribuna da Bahia. Inserção de foto arquivo Tvsaj.
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