Obesidade duplica risco de afetados pela covid-19 necessitarem de ventilação mecânica

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Foto: Claudio Furlan/LaPresse via AP
Os infectados pela covid-19 têm o dobro de probabilidade de necessitar de ventilação mecânica quando sofrem de obesidade e o dobro de risco de serem hospitalizados caso tiverem feito radioterapia para câncer no último ano, de acordo com os primeiros e dispersos dados sobre a piora dos pacientes com coronavírus que estão aparecendo ― todos preliminares, mas coerentes em seu conjunto.
A Sociedade Espanhola para o Estudo da Obesidade (Seedo) fez um resumo das evidências científicas publicadas até agora e a relação é clara: pessoas com sobrepeso ou obesidade infectadas pelo coronavírus têm piores índices de sobrevivência e uma evolução pior do que o resto, comenta Francisco Tinahones, presidente da sociedade.
A lupa está colocada nesta questão desde o início da pandemia. Na China, um primeiro trabalho calculou que 88% dos mortos pela covid-19 tinham um índice de massa corporal (IMC, valor obtido pela divisão do peso de uma pessoa em quilos pelo quadrado de sua altura em metros) maior do que 25, que é considerado o limite a partir do qual começa o sobrepeso. Esse percentual é superior à média das pessoas com sobrepeso ou obesidade no país, que é de cerca de 54% da população. Entre os sobreviventes, 91,1% estavam abaixo desse valor.
Também um estudo francês, o mais relevante sobre o assunto até o momento, segundo Tinahones, determinou uma relação entre o sobrepeso e a obesidade com a necessidade de usar respiradores em pessoas com covid-19. E o resultado foi que 75% dos que necessitaram desse tratamento, que se dá quando a pneumonia por coronavírus avança e é grave, tinham sobrepeso ou obesidade (no conjunto da França, segundo dados da OCDE, cerca de 50% da população têm essa condição) e sua necessidade de respiradores chegou a ser o dobro daquela do conjunto dos afetados.
Tinahones acredita que por trás dessa incidência existem dois fatores. O primeiro é de tipo físico: o obeso respira pior, pois seu próprio peso dificulta o funcionamento da musculatura que deve ajudar os pulmões. Mas existe um fator biológico que acredita que deve ser observado de perto: as células do tecido adiposo, popularmente conhecidas como gordura corporal, têm uma proteína superexpressa de sua membrana, a ACE2, que se sabe que é a via de entrada do coronavírus nas células do sistema respiratório que infecta. Por isso Tinahones acredita que em pessoas com sobrepeso ou obesas esse tecido pode atuar como um reservatório da covid-19, dificultando sua eliminação e facilitando que as pessoas afetadas se mantenham como focos de contágio por mais tempo.
Relacionado a isso, Tinaones aponta que uma das possíveis causas da diferença da infecção na Espanha e na Itália em relação à Coreia do Sul e à China, para mencionar dois países com muito menos letalidade, pode estar na prevalência do sobrepeso e da obesidade. Por exemplo, na Coreia do Sul, cerca de um terço da população tem sobrepeso ou obesidade, enquanto na Espanha, segundo dados do Ministério da Saúde, 53% dos adultos são afetados (a porcentagem aumenta com a idade e atinge 63% entre os maiores de 65 anos, que é quando a covid-19 é mais perigosa).
Outras relações que começam a ser quantificadas são o agravamento dos infectados pelo vírus por terem feito quimioterapia ou implantado um stent (dispositivo extensível semelhante a uma pequena mola que mantém as artérias abertas depois de uma insuficiência cardíaca). A seguradora Sanitas fez um curioso estudo comparando algumas condições de saúde em 675 das quase 4.000 pessoas que atenderam por covid-19, segundo explica o diretor médico da divisão de hospitais da empresa, Domingo Marzal. Foi mensurada a probabilidade de internação daquelas pessoas com alguma condição em comparação com o conjunto de pacientes que trataram, tomando dados dos maiores de 60 anos. Assim, constataram que ter feito radioterapia multiplicava o risco por dois; ter implantado um stent nos últimos 12 meses o multiplicava por quatro e ter se submetido a uma cirurgia ou terapia respiratória o multiplicava por cinco.
Marzal admite que não se trata de um estudo em sentido estrito, mas avalia que a diferença entre a porcentagem de afetados que foram internados sem ter esses fatores condicionantes e os que os têm é tão grande que confirma a relação entre essas patologias e a evolução da infecção por coronavírus, também dando uma ideia de que o efeito não é menor, mas muito importante. (El Paris)

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